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Cursos:
(E.06) Curso de Escrita Criativa / poesia contemporânea | 10 semanas.

(J.09) Workshop de Poesia Contemporânea | 3 horas (parceria EC.ON & Fábrica do Braço de Prata).

Bio:
Professor de Literatura Portuguesa, crítico literário, ensaísta e poeta. Nasceu em Lisboa, em 1976. Colaborou com JL, Relâmpago e Colóquio-Letras. Publicou cinco livros de poesia e encontra-se antologiado em publicações diversas de poesia portuguesa contemporânea. O seu mais recente livro, publicado em 2013, intitula-se “O Nome Negro” (Relógio d’Água).

Entrevista EC.ON (Newsletter, Agosto de 2014):

1- Tendo em conta a sua experiência concreta, perguntamos-lhe se os formandos passam realmente a ter, no final dos cursos, uma outra relação com as suas próprias potencialidades expressivas?

No limite, os formandos terão algumas noções um pouco mais acertadas quanto a estratégias de construção de discurso, nomeadamente no campo da narrativa. Se quem faculta um curso destes puder esclarecer, com base num conto um num excerto de um romance, o formando, quanto aos modos como o romancista constrói as personagens, a diegese, a intriga, os processos de elipse narrativa e catálise (propositadamente uso o jargão, pois que sem esse recurso técnico corre-se o risco de uma abordagem superficial e impressionista), relevância de pontos de vista do narrador, densidade das personagens, ideologia e temática do texto; se tudo isto e algo mais – que se joga na intersecção com a Filosofia e a História, as Artes e o mais que houver – for, tanto quanto possível, esquadrinhado, creio que o formando pode ficar com uma ideia relativamente clara quanto a um facto simples: escreve quem vive e quem lê muito. Não é escritor quem necessariamente publica imensos livros… Carlos de Oliveira era parco na publicação das suas obras. As potencialidades expressivas de um formando, de um aluno, podem ser activadas na exacta medida em que esse formando ou aluno tenha uma inclinação natural para ler e para a linguagem. Para as palavras e sua densidade. Segundo que vou vendo enquanto professor, é certo que aulas exigentes e cursos problematizantes, por meio dos quais se articulam textos e contextos, podem levar ao desenvolvimento das potencialidades expressivas. No caso da poesia, porém – mais que no romance – não acredito que, sem ler muita poesia e sem uma visão (que só a cada um pertence e de cada um depende) metafísica da existência (Pessoa dixit) possa alguém escrever poesia, precisamente a forma de expressão mais aguda que se pode atingir na escrita…

2- Nas formações específicas que lecciona, já alguma vez acompanhou formandos que tenham começado do ‘grau zero’ e que tenham acabado por publicar um livro com alguma qualidade literária? Como sintetizaria esse processo?

Sim, em cursos de poesia contemporânea que leccionei na Faculdade de Letras ou na Casa Fernando Pessoa tive a oportunidade de acompanhar o processo de maturação de um ou outro aluno/formando que, a posteriori, veio a publicar. Creio que, acima de tudo, o processo se realiza no contacto cada vez mais próximo que o aluno vai estabelecendo com este ou aquele autor que possa, eventualmente, ter sido abordado no curso, nas aulas. Quanto a questões de qualidade literária, suponho que a publicação de um livro que nasce da frequência de aulas de escrita criativa não é, na verdade, algo que possamos encontrar. A «qualidade literária», sendo legitimada por uma comunidade de leitores especializados – a crítica, goste-se ou não, é um mecanismo de legitimação necessário – está na capacidade de engendrar qualquer coisa que traz consigo o novo… Ora, o novo, como se sabe, é como o Unicórnio: todos falam dele, mas ninguém o terá visto. Quantas vezes o novo não esteve soterrado por uma imensidão de obras medíocres que eram tidas em grande conta na sua época e, mais tarde, não constam sequer em notas de rodapé? O escritor mais lido de hoje, Rodrigues dos Santos, é autor de livros com «qualidade literária»? Não. Tal como Claúdio Nunes ou pinheiro Chagas no século XIX.

3- O que pensa do método assíncrono e sobretudo personalizado (um/a escritor/a-docente »» um formando)?

É um método possível. Mas prefiro cursos que exigem a confrontação de ideias entre formandos/alunos. Sendo certo que posso responder on-line a questões mais pessoais que um formando me coloque, creio ser mais desafiante um curso desta natureza decorrer com um mínimo de alunos – talvez dez – e um máximo de vinte.

4- Como responderia a uma questão básica que muitas vezes nos é colocada: “O que entende por escrita criativa”?

Sem querer ser exaustivo, creio que a designação «escrita criativa», de importação americana, não abarca a totalidade do que pretende significar. Não sei se existe «escrita criativa». Que escrita, para ser literária, não terá de ser criativa? Por outro lado, se a escrita criativa e os cursos que, sob esta «disciplina», se realizam, procura dotar os seus cursandos de técnicas de expressão escrita por forma a que os que fazem esses cursos possam ser «escritores» – algo que pode ser legítimo – pergunto-me se é rigorosa a designação de escrita criativa. Não seria mais adequada uma outra terminologia, por assim dizer? Porventura, como em tempos houve na Faculdade de Letras, «Técnicas de Expressão Escrita». Para mim, confesso que, num tempo em que tudo e todos parecem ter de escrever, publicar livros, de poesia ou prosa, me faz alguma confusão pensar o que seja «escrita criativa». Certo de que pode ser uma disciplina leccionável em contexto de cursos universitários, ainda assim não afasto as minhas reticências quanto à eficácia dessa mesma disciplina. É que ninguém escreve criativamente por ter frequentado um curso de «escrita criativa». Teria Proust frequentado um curso deste teor? E Jorge de Sena? Escrita criativa é, portanto, quanto a mim, mais de natureza instrumental do que algo de absolutamente essencial.